
Uma mão esguia de longos dedos afasta os etéreos e esvoaçantes véus, imobiliza-se por breves instantes inalando a doce fragrância que inunda o quarto e que se desprende das mil e uma velas que difusamente espalham a sua luz deixando vislumbrar o seu interior.
O seu olhar escuro, de um negro metálico, acaricia luxuriosamente o vulto estendido sob o divã, que se vira languidamente como se sentisse observada.
Aproxima-se devagar, silenciosamente, do local onde imersa num sono profundo e agitado, Djinn se encontrava. De quando em quando o seu corpo era sacudido por frémitos que despertaram a curiosidade do estranho que se sentou numa das almofadas sobre o divã sentido o odor cálido e exótico a canela, que da pele acetinada se desprendia.
Hipnotizante, pupilas dilatadas por um desejo que se adivinha, aproxima delicadamente a ponta dos dedos num esboço de carícia, do ombro que tão desprotegido se lhe oferecia.
O gesto foi bruscamente suspendido pelo acordar repentino de Djinn que num ápice deslizou para fora do alcance da sua mão.
- Como ousas? - proferiu - invadir assim os meus aposentos?
Um sorriso sardónico aflorou fugazmente os lábios daquele que mais não era que um sacerdote do Templo das Trevas, servidor do Princípe Chisan, senhor da morte.
O Templo da Trevas, escondido nas montanhas da Lua, só era visível aos mortais apenas em límpidas noites de lua cheia, momento em que os sacerdotes, de acordo com os rituais sagrados, abandonavam o templo, desciam à terra e assumindo a forma de um negro corvo percorriam as vilas, aldeias e cidades em busca de uma donzela que escolheriam, tomariam e acasalariam para dar continuidade às gerações de sacerdotes vindouras.
A donzela escolhida, após a concepção, seria levada para o Templo da Lua e acolhida entre as sacerdotisas até ao nascimento da criança.
Os varões eram levados à nascença pelos acólitos do Templo das Trevas, criados e educados até à puberdade, para se tornarem servidores do templo depois de um ritual que os elevariam à categoria de acólitos, onde permaneceriam até à idade adulta, para finalmente atingirem a primeira etapa do sacerdócio.
Sanwa, Terceiro Sacerdote Superior do Templo, pelo elevado grau dos seus conhecimentos, fazia parte do estrito círculo minimum de sete Sacerdotes Guardiães que serviam directamente o grande príncipe. Eram Conselheiros e Guardiães do Templo e tutelavam as outras três ordens de sacerdotes.
Como Terceiro Sacerdote Superior, trajava de negro, quase sempre de cabeça tapada por um capuz, assemelhava-se a um espectro disforme de aparência assustadora. Quando a lua atingia a sua forma mais perfeita, através da transmutação assumia a forma de um corvo, descendo assim à terra, para repetir um ritual que já durava à milénios.
- Perdão senhora minha, observo-te à algum tempo e decidi tomar-te para o ritual da Lua. Escolhi-te pela tua beleza e pelo forte carácter que pressinto em ti. Que o meu herdeiro possa reflectir a tua essência - disse Sanwa, divertido com o olhar visivelmente irado e explosivo de Djinn.
(continua...)
2 comentários:
queremos mais!
agora que o nosso "despertar" aconteceu...
beijo
Agora a pergunta se que impõe é: a que horas vem o próximo capitulo? amanhã, pela manhãzinha aqui estarei, pronta para ler o resto... Sim, concordo. Queremos mais!
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