segunda-feira, janeiro 28, 2008

«O crepúsculo de uma deusa»

As sombras bruxuleantes do crepúsculo avançavam de mansinho pela janela entreaberta do quarto, escassamente iluminado pela suave luz de velas que espalhavam um arome suave e requintado que convidava a momentos de retiro e intimidade.
No céu de veludo azul escuro salpicado de minusculos pontos prateados, os deuses aguardam que os mortais adormeçam.
Cortinas coloridas, de uma leveza etérea esvoaçavam docemente, sob a brisa cálida da noite que se avizinha.
Tapetes de toque macio e suave, acariciam os pés nus de quem os percorre com um andar gracioso;
Num enorme divã com uma coberta de veludo vermelho, macio e sussurrante, repleto de almofadas de seda deslizante, uma delicada figura feminina, graciosa descansava...salvaguardada pelos vaporosos tecidos de uma transparência divina, adivinhava-se a sua nudez.
A pele morena e suave, um pé pequeno de cujo tornozelo pende uma delicada pulseira em prata trabalhada que realça a perna morena semi desnuda, envolta em transparências reveladoras das formas sensuais e de uma voluptuosidade convidativa.

O som de um bater de asas ritmado e forte, ecoava, enquanto um manto de escuridão se abate sob a ténue claridade que ainda se escoava no horizonte.
No parapeito da varanda, uma ave negra, de olhar prescrutante e intenso varre os aposentos atentamente, parando no vulto que se adivinha por entre os coloridos véus que esvoaçam ao sabor da brisa morna e acariciadora da noite.

O bater suave das asas de veludo negro dão lugar a uma figura humana, de longos cabelos negros como as asas do corvo, alto e robusto e de olhar profundo e investigador. A sua presença parece fazer parar o tempo, enquanto se desloca silenciosamente, com a agilidade de um felino que sonda a sua presa antes do ataque.

(continua...)

segunda-feira, outubro 15, 2007

Gaudí, o incomparável...


Há uns dias apenas, adquiri uma obra que à muito procurava. Buscava um livro que me aproximasse das fabulosas obras do arquitecto Antoní Gaudí, autor entre outras da inacabada «Sagrada Familia», do Parque Güell, de La Pedrera entre outras obras da arquitectura que se tornaram ícones na bela e mediterrânica Barcelona.

Gaudí...arquitecto que transformou os meus sonhos em realidade, materializando as fantásticas construções míticas de muitos contos em obras concretas.
Visito mundos de imaginação e fantasia, sob a forma espiralada e colorida de muitas das suas obras.
Mesclo-me nos tons terra, qual construções de areia num dia de Verão, que se fundem na paisagem dos parques, criando labirintos fantásticos, espirais e curvas repletas de luminosidade e cor.

A sua criatividade que se esgueira aos menores detalhes, encanta-me. O elaborado e único trabalho de forja do ferro apresenta-nos trabalhos de um detalhe e perfeição inigualáveis, de imaginação e imprevisibilidade sem par.

Perco-me nas curvas, nos ovalados e espirais, nas formas esféricas e arredondadas...
Perco-me nas miríades de cores que, como puzzles gigantescos se perdem nas fachadas, colunas, clarabóias...
Subo a espiral infinda rumo ao infinito espaço azul, que parece não ter fim...
Sonho nas casas, que como no conto de Hansel e Gretel, parecem de açucar, chocolate e doces...

É belo, é exótico e tão estranhamente apetecível, fascinante...
É o maravilhoso mundo de Gaudí, o arquitecto.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

«Murasaki Shikibu»



«A História de Murasaki» é uma obra escrita por Liza Dalby sobre a grande novelista japonesa do século XI, conhecida como Murasaki Shikibu. Murasaki nasceu em Kyoto, no ano 973 e terá falecido por volta de 1025. Filha do governador de província, da familia Fujiwara, cedo revela um brilhante talento para a aprendizagem e para a escrita, rapidamente atalhado com um casamento imposto. Após a morte do seu marido em 1001 e como reconhecimento do seu talento Murasaki é convidada a ingressar na corte imperial.
Do período Heian emerge um relato delicado da sua vida na corte, através do seu diário que mantém durante dois anos, e uma novela que a tornou célebre «Genji monogatari». O relato das aventuras do príncipe Genji, escritas para serem lidas em voz alta perpetuaram a sua fama até aos nossos dias.
É o universo do Japão do período Heian, e da vida desta talentosa escritora japonesa que Liza desvenda numa obra cheia de subtileza e delicadeza. Para quem gosta de literatura, a não perder como é óbvio o livro «Genji monogatari», traduzido para o inglês como «The Tale of Genji».

sexta-feira, dezembro 29, 2006

«A Insustentável Leveza do Ser»

Milan Kundera é um autor que me tem levado a reflectir sobre a natureza humana e sobre a mutabilidade dos carácteres e dos sentimentos. A obra em epígrafe foi levada ao cinema, com as interpretações fabulosas de Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche a minha actriz de culto. Mas não é sobre a obra, nem sobre o filme que venho falar. É tão somente do conceito, da insustentabilidade da leveza do ser. Por natureza, por carácter, à medida que a minha vida se vai espraiando, evito ao máximo fazer juízos de valor ou julgar o comportamento, quiça por vezes estranho, das pessoas. Aquilo que para uns é tão óbvio, tão taxativo e tão intransigente, é por vezes revelador de uma profunda incapacidade. Seja de amar, de confiar ou simplesmente de partilhar. É preciso conseguir ler a alma, ir além da superfície que muitas vezes demonstra as marcas, os sofrimentos e as tristezas que a vida trouxe. O que é gostar de alguém, como se demonstra que se gosta verdadeiramente de alguém? Cada ser humano reaje a estímulos diferentes, manifesta-se de modo diferente. Cada ser humano tem o seu modo de amar, nem melhor nem pior, possivelmente diferente. Quando o outro erra, quando falha, quando engana... como reaje quem ama? De mil modos diferentes...mil reacções ora explosivas ora seráficas. Depende da alma de cada um, da grandeza e da pureza dos sentimentos, e da gravidade da situação. Há quem grite, insulte e esperneie... Há quem cale, chore em silêncio, e perdoe... Há quem entristeça e fique de coração pesado... Tantas reacções como a miríade de emoções que afloram à superficie da alma no momento. A insustentável leveza da minha alma, do meu coração, reside na imensa capacidade de ver o outro, de ir além da superfície e respeitar e amar as imperfeições... É ser capaz, apesar de tudo de amar, de partilhar e de me dar incondicionalmente... A insustentável leveza do ser, é amar além do bem e do mal...