sexta-feira, fevereiro 08, 2008

«O Crepúsculo de uma deusa II - O Pacto»


- Escolheste-me? - interrogou com uma inflexão de voz que revelava sarcasmo e alguma diversão. Arqueando ironicamente a sobrancelha, com um ar pensativo, olha-o e contrapõe:
- Que garantias tens que foste tu quem me escolheu e não o oposto? - indaga, misteriosamente.
Intrigado com esta reacção que de todo não se enquadrava nos parâmetros de comportamento normais a que estava habituado, o sacerdote, inquire-se quanto aos propósitos desta mulher que cada vez o deixava mais intrigado. Não estava perante uma fêmea mortal comum, semelhante a tantas outras que já havia possuído em luas anteriores, assustadiças, temerosas e submissas. Algo no seu instinto lhe dizia para ser cauteloso.
- Não preciso de garantias - retorque altivo. - Os sacerdotes escolhem aquelas com quem pretendem procriar.E eu escolhi-te a ti!
Sentando-se plácida e comodamente no divã, Djinn olha-o pensativamente, como que perscrutando a mente dele com o olhar penetrante.
Sentindo a invasão da sua mente, e o escrutínio das suas memórias, Sanwa apercebe-se subitamente que não estava perante uma mulher comum. As mulheres mortais não possuíam o dom da leitura da mente que a mulher que escolhera apresentava. Isso deixava-o profundamente irritado e perplexo, porque na sua longa vida nunca se havia deparado com uma situação semelhante. Estava confuso e ao mesmo tempo excitado porque nela tudo soava a desafio, e de algum modo a situação atraía-o ainda mais. Ainda assim tentando não deixar transparecer as emoções que afloravam o seu espírito, perguntou em tom relativamente controlado:
- Quem és tu? Que de modo abusivo tenta invadir a intimidade dos meus pensamentos? - questionou com a voz ligeiramente alquebrada.
Visivelmente divertida com desconforto que descortinou na voz do desconhecido, exclama:
- Ora vejam, estás curioso e espantado por teres encontrado uma mulher que não te teme, não choraminga de receio nem se curva a teus pés solicitando lacrimosa que a poupes!
O olhar tornava-se agora atrevido, mirando apreciativamente Sanwa da cabeça aos pés. No seu íntimo pensava que apesar de tudo o desconhecido tinha uma certa elegância e nobreza. Seria um adversário à altura do jogo que na sua mente se começou a esboçar. Sem dúvida...seria um enorme desafio, pensou.
No espaço de alguns segundos que mais pareciam uma eternidade, olhou-o fixamente e disse:
- Se pretendes possuir-me, terás primeiro que adivinhar quem sou e consequentemente o meu nome. Se desvendares o enigma prometo que serei tua e farei exactamente aquilo que pretendes. Dar-te-ei um herdeiro para que possas continuar a tua linhagem. Aceitas?
Sanwa que se tinha erguido para se aproximar, estacou, olhou-a com um misto de divertimento e estupefacção. A ousadia desta mulher ultrapassava o inimaginável, no entanto, em vez de lhe responder impulsiva e agrestemente, uma voz interior aconselhou-o a aceitar o desafio que a desconhecida lhe propunha.
- Muito bem - respondeu. - Aceito! Mas com uma condição, se descobrir vergas-te à minha vontade, se não for bem sucedido, obrigas-te a encontrar e alguém que te substitua. O ritual tem que ser cumprido até à próxima lua cheia.
- Assim seja! - aquiesceu. - «Alea jacta est» - acrescentou, olhando desafiadora o seu adversário.

(continua...)
* Imagem de Dufaux

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

«Éloge de l' Amitié», Tahar Ben Jelloun

Descobri Tahar Ben Jelloun à muitos anos, numas férias em Biarritz, pelas mãos de uma amiga que muito respeito pela sua imensa sabedoria, que apenas a idade e experiência poderiam aconselhar, e que vivendo longos anos em Marrocos teve o privilégio de privar com pessoas tão fascinantes como o rei Hassan II de Marrocos ou mesmo De Gaulle ou Paul Newman; foi ela que me apresentou a obra do escritor marroquino.
Desde as primeiras linhas que fiquei fascinada pelas suas descrições de Marrocos e das suas gentes, mas sobretudo pela expressão vívida dos sentimentos, algumas vezes poética, outras crua e dura, qual espelho da sua própria vida.
A beleza do seu texto, a manifestação de uma miríade de sentimentos através da palavra, cativaram-me e encantaram-me desde o primeiro minuto.
Um dos livros mais belos e que mais me fizeram reflectir foi aquele que dá título a esta reflexão: «Éloge de l'Amitié (la soudure fraternelle).
Nele encontramos uma profunda reflexão sobre a «amizade» não como conceito (que também é abordado) mas da experiência do autor, das vivências e dos seus amigos.
Uns mais do que outros, o modo como marcaram a sua vida, ou como perduraram na sua memória.

Algumas citações da obra que me fizeram pensar e repensar em muito do que pensava ser uma verdade, não absoluta claro, mas muito muito mais relativa do que alguma vez imaginara:

«L'amitié est une religion sans Dieu ni jugement dernier. Sans diable non plus.»

«L'amitié ne rend pas le malheur plus léger, mais en se faisant présence et dévouement, elle permet d'en partager le poids, et ouvre les portes de l'apaisement.»

Se puderem, leiam porque merece a pena. Entre outros «Amours sorcières», «La prière de l'absent» ou mesmo «Aux yeux baissés».

terça-feira, janeiro 29, 2008

O crepúsculo de uma deusa - I - O despertar»


Uma mão esguia de longos dedos afasta os etéreos e esvoaçantes véus, imobiliza-se por breves instantes inalando a doce fragrância que inunda o quarto e que se desprende das mil e uma velas que difusamente espalham a sua luz deixando vislumbrar o seu interior.

O seu olhar escuro, de um negro metálico, acaricia luxuriosamente o vulto estendido sob o divã, que se vira languidamente como se sentisse observada.
Aproxima-se devagar, silenciosamente, do local onde imersa num sono profundo e agitado, Djinn se encontrava. De quando em quando o seu corpo era sacudido por frémitos que despertaram a curiosidade do estranho que se sentou numa das almofadas sobre o divã sentido o odor cálido e exótico a canela, que da pele acetinada se desprendia.

Hipnotizante, pupilas dilatadas por um desejo que se adivinha, aproxima delicadamente a ponta dos dedos num esboço de carícia, do ombro que tão desprotegido se lhe oferecia.

O gesto foi bruscamente suspendido pelo acordar repentino de Djinn que num ápice deslizou para fora do alcance da sua mão.

- Como ousas? - proferiu - invadir assim os meus aposentos?

Um sorriso sardónico aflorou fugazmente os lábios daquele que mais não era que um sacerdote do Templo das Trevas, servidor do Princípe Chisan, senhor da morte.
O Templo da Trevas, escondido nas montanhas da Lua, só era visível aos mortais apenas em límpidas noites de lua cheia, momento em que os sacerdotes, de acordo com os rituais sagrados, abandonavam o templo, desciam à terra e assumindo a forma de um negro corvo percorriam as vilas, aldeias e cidades em busca de uma donzela que escolheriam, tomariam e acasalariam para dar continuidade às gerações de sacerdotes vindouras.
A donzela escolhida, após a concepção, seria levada para o Templo da Lua e acolhida entre as sacerdotisas até ao nascimento da criança.
Os varões eram levados à nascença pelos acólitos do Templo das Trevas, criados e educados até à puberdade, para se tornarem servidores do templo depois de um ritual que os elevariam à categoria de acólitos, onde permaneceriam até à idade adulta, para finalmente atingirem a primeira etapa do sacerdócio.

Sanwa, Terceiro Sacerdote Superior do Templo, pelo elevado grau dos seus conhecimentos, fazia parte do estrito círculo minimum de sete Sacerdotes Guardiães que serviam directamente o grande príncipe. Eram Conselheiros e Guardiães do Templo e tutelavam as outras três ordens de sacerdotes.

Como Terceiro Sacerdote Superior, trajava de negro, quase sempre de cabeça tapada por um capuz, assemelhava-se a um espectro disforme de aparência assustadora. Quando a lua atingia a sua forma mais perfeita, através da transmutação assumia a forma de um corvo, descendo assim à terra, para repetir um ritual que já durava à milénios.

- Perdão senhora minha, observo-te à algum tempo e decidi tomar-te para o ritual da Lua. Escolhi-te pela tua beleza e pelo forte carácter que pressinto em ti. Que o meu herdeiro possa reflectir a tua essência - disse Sanwa, divertido com o olhar visivelmente irado e explosivo de Djinn.

(continua...)

segunda-feira, janeiro 28, 2008

«O crepúsculo de uma deusa»

As sombras bruxuleantes do crepúsculo avançavam de mansinho pela janela entreaberta do quarto, escassamente iluminado pela suave luz de velas que espalhavam um arome suave e requintado que convidava a momentos de retiro e intimidade.
No céu de veludo azul escuro salpicado de minusculos pontos prateados, os deuses aguardam que os mortais adormeçam.
Cortinas coloridas, de uma leveza etérea esvoaçavam docemente, sob a brisa cálida da noite que se avizinha.
Tapetes de toque macio e suave, acariciam os pés nus de quem os percorre com um andar gracioso;
Num enorme divã com uma coberta de veludo vermelho, macio e sussurrante, repleto de almofadas de seda deslizante, uma delicada figura feminina, graciosa descansava...salvaguardada pelos vaporosos tecidos de uma transparência divina, adivinhava-se a sua nudez.
A pele morena e suave, um pé pequeno de cujo tornozelo pende uma delicada pulseira em prata trabalhada que realça a perna morena semi desnuda, envolta em transparências reveladoras das formas sensuais e de uma voluptuosidade convidativa.

O som de um bater de asas ritmado e forte, ecoava, enquanto um manto de escuridão se abate sob a ténue claridade que ainda se escoava no horizonte.
No parapeito da varanda, uma ave negra, de olhar prescrutante e intenso varre os aposentos atentamente, parando no vulto que se adivinha por entre os coloridos véus que esvoaçam ao sabor da brisa morna e acariciadora da noite.

O bater suave das asas de veludo negro dão lugar a uma figura humana, de longos cabelos negros como as asas do corvo, alto e robusto e de olhar profundo e investigador. A sua presença parece fazer parar o tempo, enquanto se desloca silenciosamente, com a agilidade de um felino que sonda a sua presa antes do ataque.

(continua...)

segunda-feira, outubro 15, 2007

Gaudí, o incomparável...


Há uns dias apenas, adquiri uma obra que à muito procurava. Buscava um livro que me aproximasse das fabulosas obras do arquitecto Antoní Gaudí, autor entre outras da inacabada «Sagrada Familia», do Parque Güell, de La Pedrera entre outras obras da arquitectura que se tornaram ícones na bela e mediterrânica Barcelona.

Gaudí...arquitecto que transformou os meus sonhos em realidade, materializando as fantásticas construções míticas de muitos contos em obras concretas.
Visito mundos de imaginação e fantasia, sob a forma espiralada e colorida de muitas das suas obras.
Mesclo-me nos tons terra, qual construções de areia num dia de Verão, que se fundem na paisagem dos parques, criando labirintos fantásticos, espirais e curvas repletas de luminosidade e cor.

A sua criatividade que se esgueira aos menores detalhes, encanta-me. O elaborado e único trabalho de forja do ferro apresenta-nos trabalhos de um detalhe e perfeição inigualáveis, de imaginação e imprevisibilidade sem par.

Perco-me nas curvas, nos ovalados e espirais, nas formas esféricas e arredondadas...
Perco-me nas miríades de cores que, como puzzles gigantescos se perdem nas fachadas, colunas, clarabóias...
Subo a espiral infinda rumo ao infinito espaço azul, que parece não ter fim...
Sonho nas casas, que como no conto de Hansel e Gretel, parecem de açucar, chocolate e doces...

É belo, é exótico e tão estranhamente apetecível, fascinante...
É o maravilhoso mundo de Gaudí, o arquitecto.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

«Murasaki Shikibu»



«A História de Murasaki» é uma obra escrita por Liza Dalby sobre a grande novelista japonesa do século XI, conhecida como Murasaki Shikibu. Murasaki nasceu em Kyoto, no ano 973 e terá falecido por volta de 1025. Filha do governador de província, da familia Fujiwara, cedo revela um brilhante talento para a aprendizagem e para a escrita, rapidamente atalhado com um casamento imposto. Após a morte do seu marido em 1001 e como reconhecimento do seu talento Murasaki é convidada a ingressar na corte imperial.
Do período Heian emerge um relato delicado da sua vida na corte, através do seu diário que mantém durante dois anos, e uma novela que a tornou célebre «Genji monogatari». O relato das aventuras do príncipe Genji, escritas para serem lidas em voz alta perpetuaram a sua fama até aos nossos dias.
É o universo do Japão do período Heian, e da vida desta talentosa escritora japonesa que Liza desvenda numa obra cheia de subtileza e delicadeza. Para quem gosta de literatura, a não perder como é óbvio o livro «Genji monogatari», traduzido para o inglês como «The Tale of Genji».

sexta-feira, dezembro 29, 2006

«A Insustentável Leveza do Ser»

Milan Kundera é um autor que me tem levado a reflectir sobre a natureza humana e sobre a mutabilidade dos carácteres e dos sentimentos. A obra em epígrafe foi levada ao cinema, com as interpretações fabulosas de Daniel Day-Lewis e Juliette Binoche a minha actriz de culto. Mas não é sobre a obra, nem sobre o filme que venho falar. É tão somente do conceito, da insustentabilidade da leveza do ser. Por natureza, por carácter, à medida que a minha vida se vai espraiando, evito ao máximo fazer juízos de valor ou julgar o comportamento, quiça por vezes estranho, das pessoas. Aquilo que para uns é tão óbvio, tão taxativo e tão intransigente, é por vezes revelador de uma profunda incapacidade. Seja de amar, de confiar ou simplesmente de partilhar. É preciso conseguir ler a alma, ir além da superfície que muitas vezes demonstra as marcas, os sofrimentos e as tristezas que a vida trouxe. O que é gostar de alguém, como se demonstra que se gosta verdadeiramente de alguém? Cada ser humano reaje a estímulos diferentes, manifesta-se de modo diferente. Cada ser humano tem o seu modo de amar, nem melhor nem pior, possivelmente diferente. Quando o outro erra, quando falha, quando engana... como reaje quem ama? De mil modos diferentes...mil reacções ora explosivas ora seráficas. Depende da alma de cada um, da grandeza e da pureza dos sentimentos, e da gravidade da situação. Há quem grite, insulte e esperneie... Há quem cale, chore em silêncio, e perdoe... Há quem entristeça e fique de coração pesado... Tantas reacções como a miríade de emoções que afloram à superficie da alma no momento. A insustentável leveza da minha alma, do meu coração, reside na imensa capacidade de ver o outro, de ir além da superfície e respeitar e amar as imperfeições... É ser capaz, apesar de tudo de amar, de partilhar e de me dar incondicionalmente... A insustentável leveza do ser, é amar além do bem e do mal...