domingo, março 02, 2008

Meu filho...

Filho, no meu ventre gerado,
Acto de puro amor,
A cada momento eternizado,
No teu olhar, reflexo perene,
Beleza imortalizada...
Filho, da minha alma recôndita,
Sangue do meu sangue inflamado,
Alma de borboleta etérea,
Espírito rebelde apaixonado...
Gatinhas-te, titubeas-te,
E gentilmente te levantas-te,
Num ciclo imutável de crescimento,
Num jovem te transformas-te...
Qual larva que sai do casulo,
Abraças agora a vida,
Com olhar brilhante de esperança,
Passos firmes e plenos de alegria...
Quantas palavras se perderam no passado,
Quantos momentos vivemos sem futuro,
Orgulho-me de te ter ao meu lado,
És o meu filho bem-amado,
E de quem muito me orgulho.

(Ao meu filho Rodrigo...)

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Notícias - Ciclo Conferências sobre o Egipto

Para quem gosta de temáticas ligadas ao Egipto antigo fica a notícia de um ciclo de conferências em que tenho o prazer de participar no Museu Nacional de Arqueologia.
http://www.mnarqueologia-ipmuseus.pt/default.asp?a=17&x=3

Ciclo de Conferências "As sete maravilhas do Egipto"


A Associação Cultural de Amizade Portugal-Egipto (ACAPE) - Av. D. Vasco da Gama, n.º 8, 1400-128 Lisboa, organiza um ciclo de conferências sobre o tema «As sete maravilhas do Egipto», que decorrerá no auditório do Museu Nacional de Arqueologia (MNA), com o apoio do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (GAMNA).

O Programa decorrerá todos os meses, entre Janeiro e Julho de 2008, prevendo-se que haja dois conferencistas permanentes e um convidado para cada sessão.

Intervenientes:
- Professor Doutor Luís Manuel de Araújo
- Professor Doutor José das Candeias Sales
- Um conferencista convidado, membro da ACAPE

Entrada livre

Programa


Março

Dia 15 - Sábado (15.00 - 17.00 horas)
«Deir el-Bahari, a harmonia petrificada»
- A rainha Hatchepsut (Luís Manuel de Araújo)
- Os monumentos (Rogério Ferreira de Sousa)-Por ausência será apresentado pelo Telo Canhão
- As divindades presentes (José das Candeias Sales)-Por ausência será apresentado por Alexandra Oliveira

Abril

Dia 19 - Sábado (15.00 - 17.00 horas)
«Túmulos tebanos, hipogeus para a eternidade»
- Túmulos do Vale dos Reis (Paulo Carreira)
- Túmulo de Nefertari (Luís Manuel de Araújo)
- Túmulos de funcionários (José das Candeias Sales)

Maio

Dia 17 - Sábado (15.00 - 17.00 horas)
«Templo de Edfu, a casa de Hórus»
- O contexto histórico (Alexandra Diez de Oliveira)
- O monumento (José das Candeias Sales)
- As divindades presentes (Luís Manuel de Araújo)

Junho

Dia 14 - Sábado (15.00 - 17.00 horas)
«Ilha de Fila, a pérola do Nilo»
- O contexto histórico (Luís Manuel de Araújo)
- Os monumentos (Maria José Albuquerque)
- O salvamento dos templos (José das Candeias Sales)

Julho

Dia 5 - Sábado (15.00 - 17.00 horas)
«Abu Simbel, à glória de Ramsés II»
- Grande Templo (Telo Ferreira Canhão)
- Pequeno Templo (Luís Manuel de Araújo)
- O salvamento dos templos (José das Candeias Sales)

domingo, fevereiro 17, 2008

«O Crepúsculo de uma Deusa - III - A profecia»

Selado o pacto, um estranho arrepio percorreu o corpo de Sanwa, qual prenúncio de algo potencialmente perigoso que o deixou profundamente inquieto. Estranho pressentimento de fatalidade.
Não havia memória nos anais do Templo de uma situação insólita como esta sobretudo entre um sacerdote de Chisan e uma mera mortal que pressupostamente deveria estar à sua mercê.
A sua previdência, no entanto, havia ditado o rumo dos acontecimentos como se tal estivesse predestinado - maktub - e fosse inevitável. Uma voz interior sussurrava-lhe de mansinho que se mantivesse atento e que fosse cauteloso.
- No sétimo dia de cada semana, virás aos meus aposentos e tentarás adivinhar quem sou - diz Djinn.- Obviamente que a cada visita te darei uma pista que te permitirá resolver o enigma.Se fores bem sucedido passarás à pista seguinte, senão continuarás com a mesma até ao terminus do prazo acordado.
Djinn divertia-se visivelmente com o ar cada vez mais soturno e desconfortável do desconhecido. Será que ele suspeitava de alguma coisa, pensou? Sendo um sacerdote deveria estar a par da antiga profecia...no entanto a sua fleumática postura nada revelava.
Sanwa, sentia-se encurralado pela primeira vez na sua longa existência, desconhecendo as causas, mas sentia-se compelido a pactuar com tudo o que a bela desconhecida lhe exigia, como se tivesse sob o efeito de um poderoso feitiço, contra o qual não conseguia lutar.
- Estás muito confiante! - invectivou jocoso. - Demasiado confiante, não te parece? - o olhar tornou-se mais escuro e brilhante, perigosamente sedutor.
- De todo - afirmou Djinn. Não se trata em absoluto de confiança, mas de sabedoria. Aquilo que eu sei e que tu desconheces! - lançou num riso sarcástico.
Perturbado Sanwa decide tomar as rédeas do jogo e retirar-se de cena para dar início ao pacto que acabara de celebrar, com aquela bela mulher que o intrigava e seduzia.
- Muito bem, qual é a primeira pista? pergunta altivo.
- Maktub, a origem está na antiga profecia do Templo da Lua - proclama com uma voz cristalina. Regressa daqui a sete dias e diz-me do que estou a falar...
- Do Templo da Lua? - indagou surpreendido. - Estais louca? Esse Templo é interdito aos sacerdotes! É impossível saber o que pretendes.
- Isso não me diz respeito! - cortou ríspida. - Estes são os termos do pacto que aceitaste. Agora não tem volta. Se quebrares o pacto antes de teres resolvido o enigma, sabes que perdes o domínio sobre mim, e ficarás à minha mercê. Olhou-o desafiadoramente. - Tens sete dias...
- Seja! - proferiu irado. - Voltarei. Prepara-te porque dentro de sete dias, ao por do sol estou de volta.
Do mesmo modo que chegou, Sanwa partiu, envolvido pelas sombras da noite, rápido, fugaz.
Djinn saiu para o terraço, abraçando a luz prateada da lua que lhe tocava a pele, deixando um rasto brilhante...olhando para o céu pensou - Mãe, a profecia cumprir-se-á. Em breve, muito em breve...

(continua...)

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

«O Crepúsculo de uma deusa II - O Pacto»


- Escolheste-me? - interrogou com uma inflexão de voz que revelava sarcasmo e alguma diversão. Arqueando ironicamente a sobrancelha, com um ar pensativo, olha-o e contrapõe:
- Que garantias tens que foste tu quem me escolheu e não o oposto? - indaga, misteriosamente.
Intrigado com esta reacção que de todo não se enquadrava nos parâmetros de comportamento normais a que estava habituado, o sacerdote, inquire-se quanto aos propósitos desta mulher que cada vez o deixava mais intrigado. Não estava perante uma fêmea mortal comum, semelhante a tantas outras que já havia possuído em luas anteriores, assustadiças, temerosas e submissas. Algo no seu instinto lhe dizia para ser cauteloso.
- Não preciso de garantias - retorque altivo. - Os sacerdotes escolhem aquelas com quem pretendem procriar.E eu escolhi-te a ti!
Sentando-se plácida e comodamente no divã, Djinn olha-o pensativamente, como que perscrutando a mente dele com o olhar penetrante.
Sentindo a invasão da sua mente, e o escrutínio das suas memórias, Sanwa apercebe-se subitamente que não estava perante uma mulher comum. As mulheres mortais não possuíam o dom da leitura da mente que a mulher que escolhera apresentava. Isso deixava-o profundamente irritado e perplexo, porque na sua longa vida nunca se havia deparado com uma situação semelhante. Estava confuso e ao mesmo tempo excitado porque nela tudo soava a desafio, e de algum modo a situação atraía-o ainda mais. Ainda assim tentando não deixar transparecer as emoções que afloravam o seu espírito, perguntou em tom relativamente controlado:
- Quem és tu? Que de modo abusivo tenta invadir a intimidade dos meus pensamentos? - questionou com a voz ligeiramente alquebrada.
Visivelmente divertida com desconforto que descortinou na voz do desconhecido, exclama:
- Ora vejam, estás curioso e espantado por teres encontrado uma mulher que não te teme, não choraminga de receio nem se curva a teus pés solicitando lacrimosa que a poupes!
O olhar tornava-se agora atrevido, mirando apreciativamente Sanwa da cabeça aos pés. No seu íntimo pensava que apesar de tudo o desconhecido tinha uma certa elegância e nobreza. Seria um adversário à altura do jogo que na sua mente se começou a esboçar. Sem dúvida...seria um enorme desafio, pensou.
No espaço de alguns segundos que mais pareciam uma eternidade, olhou-o fixamente e disse:
- Se pretendes possuir-me, terás primeiro que adivinhar quem sou e consequentemente o meu nome. Se desvendares o enigma prometo que serei tua e farei exactamente aquilo que pretendes. Dar-te-ei um herdeiro para que possas continuar a tua linhagem. Aceitas?
Sanwa que se tinha erguido para se aproximar, estacou, olhou-a com um misto de divertimento e estupefacção. A ousadia desta mulher ultrapassava o inimaginável, no entanto, em vez de lhe responder impulsiva e agrestemente, uma voz interior aconselhou-o a aceitar o desafio que a desconhecida lhe propunha.
- Muito bem - respondeu. - Aceito! Mas com uma condição, se descobrir vergas-te à minha vontade, se não for bem sucedido, obrigas-te a encontrar e alguém que te substitua. O ritual tem que ser cumprido até à próxima lua cheia.
- Assim seja! - aquiesceu. - «Alea jacta est» - acrescentou, olhando desafiadora o seu adversário.

(continua...)
* Imagem de Dufaux

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

«Éloge de l' Amitié», Tahar Ben Jelloun

Descobri Tahar Ben Jelloun à muitos anos, numas férias em Biarritz, pelas mãos de uma amiga que muito respeito pela sua imensa sabedoria, que apenas a idade e experiência poderiam aconselhar, e que vivendo longos anos em Marrocos teve o privilégio de privar com pessoas tão fascinantes como o rei Hassan II de Marrocos ou mesmo De Gaulle ou Paul Newman; foi ela que me apresentou a obra do escritor marroquino.
Desde as primeiras linhas que fiquei fascinada pelas suas descrições de Marrocos e das suas gentes, mas sobretudo pela expressão vívida dos sentimentos, algumas vezes poética, outras crua e dura, qual espelho da sua própria vida.
A beleza do seu texto, a manifestação de uma miríade de sentimentos através da palavra, cativaram-me e encantaram-me desde o primeiro minuto.
Um dos livros mais belos e que mais me fizeram reflectir foi aquele que dá título a esta reflexão: «Éloge de l'Amitié (la soudure fraternelle).
Nele encontramos uma profunda reflexão sobre a «amizade» não como conceito (que também é abordado) mas da experiência do autor, das vivências e dos seus amigos.
Uns mais do que outros, o modo como marcaram a sua vida, ou como perduraram na sua memória.

Algumas citações da obra que me fizeram pensar e repensar em muito do que pensava ser uma verdade, não absoluta claro, mas muito muito mais relativa do que alguma vez imaginara:

«L'amitié est une religion sans Dieu ni jugement dernier. Sans diable non plus.»

«L'amitié ne rend pas le malheur plus léger, mais en se faisant présence et dévouement, elle permet d'en partager le poids, et ouvre les portes de l'apaisement.»

Se puderem, leiam porque merece a pena. Entre outros «Amours sorcières», «La prière de l'absent» ou mesmo «Aux yeux baissés».

terça-feira, janeiro 29, 2008

O crepúsculo de uma deusa - I - O despertar»


Uma mão esguia de longos dedos afasta os etéreos e esvoaçantes véus, imobiliza-se por breves instantes inalando a doce fragrância que inunda o quarto e que se desprende das mil e uma velas que difusamente espalham a sua luz deixando vislumbrar o seu interior.

O seu olhar escuro, de um negro metálico, acaricia luxuriosamente o vulto estendido sob o divã, que se vira languidamente como se sentisse observada.
Aproxima-se devagar, silenciosamente, do local onde imersa num sono profundo e agitado, Djinn se encontrava. De quando em quando o seu corpo era sacudido por frémitos que despertaram a curiosidade do estranho que se sentou numa das almofadas sobre o divã sentido o odor cálido e exótico a canela, que da pele acetinada se desprendia.

Hipnotizante, pupilas dilatadas por um desejo que se adivinha, aproxima delicadamente a ponta dos dedos num esboço de carícia, do ombro que tão desprotegido se lhe oferecia.

O gesto foi bruscamente suspendido pelo acordar repentino de Djinn que num ápice deslizou para fora do alcance da sua mão.

- Como ousas? - proferiu - invadir assim os meus aposentos?

Um sorriso sardónico aflorou fugazmente os lábios daquele que mais não era que um sacerdote do Templo das Trevas, servidor do Princípe Chisan, senhor da morte.
O Templo da Trevas, escondido nas montanhas da Lua, só era visível aos mortais apenas em límpidas noites de lua cheia, momento em que os sacerdotes, de acordo com os rituais sagrados, abandonavam o templo, desciam à terra e assumindo a forma de um negro corvo percorriam as vilas, aldeias e cidades em busca de uma donzela que escolheriam, tomariam e acasalariam para dar continuidade às gerações de sacerdotes vindouras.
A donzela escolhida, após a concepção, seria levada para o Templo da Lua e acolhida entre as sacerdotisas até ao nascimento da criança.
Os varões eram levados à nascença pelos acólitos do Templo das Trevas, criados e educados até à puberdade, para se tornarem servidores do templo depois de um ritual que os elevariam à categoria de acólitos, onde permaneceriam até à idade adulta, para finalmente atingirem a primeira etapa do sacerdócio.

Sanwa, Terceiro Sacerdote Superior do Templo, pelo elevado grau dos seus conhecimentos, fazia parte do estrito círculo minimum de sete Sacerdotes Guardiães que serviam directamente o grande príncipe. Eram Conselheiros e Guardiães do Templo e tutelavam as outras três ordens de sacerdotes.

Como Terceiro Sacerdote Superior, trajava de negro, quase sempre de cabeça tapada por um capuz, assemelhava-se a um espectro disforme de aparência assustadora. Quando a lua atingia a sua forma mais perfeita, através da transmutação assumia a forma de um corvo, descendo assim à terra, para repetir um ritual que já durava à milénios.

- Perdão senhora minha, observo-te à algum tempo e decidi tomar-te para o ritual da Lua. Escolhi-te pela tua beleza e pelo forte carácter que pressinto em ti. Que o meu herdeiro possa reflectir a tua essência - disse Sanwa, divertido com o olhar visivelmente irado e explosivo de Djinn.

(continua...)

segunda-feira, janeiro 28, 2008

«O crepúsculo de uma deusa»

As sombras bruxuleantes do crepúsculo avançavam de mansinho pela janela entreaberta do quarto, escassamente iluminado pela suave luz de velas que espalhavam um arome suave e requintado que convidava a momentos de retiro e intimidade.
No céu de veludo azul escuro salpicado de minusculos pontos prateados, os deuses aguardam que os mortais adormeçam.
Cortinas coloridas, de uma leveza etérea esvoaçavam docemente, sob a brisa cálida da noite que se avizinha.
Tapetes de toque macio e suave, acariciam os pés nus de quem os percorre com um andar gracioso;
Num enorme divã com uma coberta de veludo vermelho, macio e sussurrante, repleto de almofadas de seda deslizante, uma delicada figura feminina, graciosa descansava...salvaguardada pelos vaporosos tecidos de uma transparência divina, adivinhava-se a sua nudez.
A pele morena e suave, um pé pequeno de cujo tornozelo pende uma delicada pulseira em prata trabalhada que realça a perna morena semi desnuda, envolta em transparências reveladoras das formas sensuais e de uma voluptuosidade convidativa.

O som de um bater de asas ritmado e forte, ecoava, enquanto um manto de escuridão se abate sob a ténue claridade que ainda se escoava no horizonte.
No parapeito da varanda, uma ave negra, de olhar prescrutante e intenso varre os aposentos atentamente, parando no vulto que se adivinha por entre os coloridos véus que esvoaçam ao sabor da brisa morna e acariciadora da noite.

O bater suave das asas de veludo negro dão lugar a uma figura humana, de longos cabelos negros como as asas do corvo, alto e robusto e de olhar profundo e investigador. A sua presença parece fazer parar o tempo, enquanto se desloca silenciosamente, com a agilidade de um felino que sonda a sua presa antes do ataque.

(continua...)