Os raios de sol quentes da manhã tocaram levemente a minha face.
O calor invadiu a minha alma, que aos poucos se sente esfriar.
Sinto amornecer o coração de loba que quer partir, que quer fugir,
que quer negar um novo amanhã, que se quer esconder no coração escuro da floresta.
Inicio uma corrida contra o tempo, contra mim, rasgo-me nas silvas, sinto a dor, sinto o sangue escorrer das feridas.
Embrenho-me no âmago da floresta, acolho o toque sedoso do vento que acaricia o meu pelo, e me sussurra - «corre, anda loba, foge do teu destino». Que destino pergunto ao vento, uma loba solitária que se perde da alcateia não tem rumo, está irremediavelmente só...
Corro, cada vez mais veloz, perdendo-me por entre o verde arvoredo que mal deixa passar uma réstea de luz, fujo da minha sombra que se faz ténue.
Escondo-me algures numa toca, perdida no fim do mundo, fecho os olhos e lambo as feridas, desejando ficar ali sossegada e escondida do mundo cruel lá de fora.
Oiço um ruído e espreito, perto de uma clareira, outro ser da mesma espécie, um lobo sente o meu cheiro, e aproxima-se.
Olha-me, e lê no meu olhar tudo aquilo que sempre quis esconder, e aproxima-se, devagar...
Não tenhas medo, não te quero fazer mal...vem anda, vamos correr pelo bosque, vamos ver juntos o sol nascer, anda ver como o lago reflecte o céu que se faz estrelado, anda sentir a brisa do entardecer acariciar o pelo sedoso.
Anda, uivemos ao luar e vamos pedir à lua que nos proteja.
Partilhemos trilhos infindos, montes e vales, atravessemos rios, e prados floridos.
O olhar dele, penetrante, cálido e ao mesmo tempo protector, faz-me dar um passo para fora da toca.
Ao ver as minhas feridas diz, deixa-me tratar dos teus ferimentos, hoje estou aqui, deixa-me ficar. Sei que és forte, mas deixa-me proteger-te, caminhemos juntos...
Mais um passo para fora da toca, e devagar vou deixando que ele se aproxime.
Sinto a sua força, e olho-o inquirindo se de facto deseja correr comigo ao vento, se quer percorrer os trilhos do mundo, uivar ao luar, dormir à beira do lago...
A intuição leva a loba a não precisar de resposta, a deixar que o lobo solitário se aproxime, e a leve...primeiro devagar começa a corrida.
Depois uma corrida desenfreada, como se o tempo fugisse, como se o mundo fosse acabar, rumo a um destino desconhecido, que tanto pode ser um fatal precipício como um prado cheio de belas flores que reflectem o sol brilhante que aquece, longe da floresta escura e melancólica onde os seus raios não conseguem penetrar.
Corre loba, corre contra o vento, contra o mundo, contra o destino...
Quem sabe no final daquele arco-íris que surje depois da chuvada morna, esteja o pote de ouro guardado pelos duendes onde reside a felicidade.
Corre loba, corre...